Livro de Cabeceira

O primeiro contato com a linguagem de Grande sertão: veredas, do escritor Guimarães Rosa, deu-me a sensação de que eu não passaria das dez primeiras páginas. “Êta linguagem complicada sô!”, esse foi o pensamento insistente. Minha falta de experiência pedia que eu saísse daquelas águas. Mas, uma vez iniciada a travessia, não há como retornar. Acostumado a terras firmes, aos poucos, fui me envolvendo por aquela umidade impactante, sentindo o prazer da percepção de outra realidade, que revela muito desta.

O mundo criado por Guimarães Rosa havia absorvido minha essência. Eu não era mais um estudante do curso de Letras. Tornara-me o atento ouvinte de Riobaldo a escutar vozes, tiroteios, intrigas sussurrantes, amores tocados pela lira do destino, o som da condição humana. Sim, porque o narrador não me falava sobre as dúvidas de ex-jagunço preocupado em reconstruir/compreender os eventos passados: revelava-me teias traçadas por dramática aranha. Preso nessas teias: o ser humano.

Com as diversas leituras de textos literários no decorrer do curso, fui ganhando experiência para atravessar as águas do Grande sertão. De modo semelhante ao que nos ensina “O burrinho Pedrês”, aprendi que o passar do tempo nos dá segurança para escolher a melhor forma de travessia. Mas, ainda, em cada nova leitura que faço de Grande sertão: veredas, novas possibilidades de interpretação tornam-se perceptíveis, novos elementos do trabalho com a linguagem verbal chamam a atenção, novos dramas me fazem emocionar. É uma obra para ser lida em várias fases de nossas vidas.

Ler Guimarães Rosa é como aprender a nadar. Primeiro, bebe-se muito água, o que causa certo receio. Com o tempo, acostumamos nosso corpo a interagir com esse meio e sentimos prazer dessa interação. A vida ensina que para crescermos é preciso o primeiro mergulho...

Prof. Marcelo Jardim é doutorando em Letras na UEL.


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