Livro de Cabeceira

As linhas cruzadas da História

Em Memorial do Convento (1983), José Saramago relata a construção do Palácio-Mosteiro de Mafra, em Portugal, paralelamente ao da construção de uma máquina voadora, denominada passarela. Trata-se de um romance histórico, sob o olhar moderno.

No primeiro caso, o Rei D. João V, que, tendo-se casado com D. Maria Ana Josefa, da Áustria, não conseguia engravidá-la, em conseqüência ficaria sem um sucessor para o trono. Foi então que o Frei Antonio de São José vaticina que se o glorioso rei construísse um convento para a morada dos frades em Mafra, desejado pelos franciscanos desde 1624, quando da dominação espanhola sobre Portugal (1580-1640), Deus lhe concederia o tão esperado herdeiro. O rei acredita na promessa e, embora nasça uma menina, fica tão feliz que manda construir não um convento pequeno, mas um palácio gigantesco, que leva treze anos para ser concluído com o trabalho de aproximadamente 40 mil homens.

Em relação à segunda narrativa, temos uma história de amor que se entrelaça a outra, remetendo o leitor à conhecida história de Ícaro, cujo sonho era voar. Baltasar Sete-Sóis e Blimunda se conhecem num domingo de auto-de-fé, quando a mãe da moça, Sebastiana Maria de Jesus, estava sendo degredada para Angola, sob acusação de bruxaria e profecia indevida. Próximo aos dois, encontra-se o Pe. Bartolomeu, que se interesse muito pelos conhecimentos de Sebastiana. É a partir desse momento que o casal e o padre buscam construir uma máquina capaz de voar, projetada exatamente pelo padre.

Os segredos de Sebastiana passam a pertencer a Blimunda, que tinha como principal dom a capacidade de enxergar por dentro das pessoas e mesmo no interior da terra. Esse dom torna-se crucial para se fazer voar a máquina, uma vez que “é preciso que o sol atraia o âmbar que há de estar preso aos arames do teto, o qual, por sua vez, atrairá o éter, que será introduzido dentro das esferas”. Conseguem então realizar o sonho, fazendo um sobrevôo justamente por Mafra, local de construção do convento.

Dos três sonhadores, o padre, devido a sua proximidade com a alquimia, tem de fugir da Inquisição para Toledo, Espanha. Já Baltasar não tem a mesma sorte; é queimado vivo pela Inquisição ao lado de Antonio José da Silva, o Judeu, autor que satirizava a Igreja Católica em suas peças teatrais. Quanto à Blimunda, esta que havia perdido o contato com Baltasar e esteve a procurá-lo durante nove anos, reencontra-o no momento da morte do seu antigo amor.

As duas narrativas giram principalmente em torno de Baltasar, um dos milhares de recrutas trabalhadores na construção do convento. Ele tanto vive uma realização pessoal na construção da máquina voadora, quanto se insere numa coletividade que tem de realizar um desejo imperial, um desejo motivado pelo poder.

Memorial do Convento faz uma releitura dos acontecimentos ocorridos em Portugal na primeira metade do Século XVIII. Nesse sentido, à primeira vista, poderia ser classificado como romance histórico, remetendo o leitor, portanto, a fatos concretos. Porém, o movimento narrativo assume outras dimensões. Apesar da presença de personagens factuais, como D. João V e Antonio José, há, contudo, da parte do narrador, cujo olhar é pautado por uma perspectiva do século XX, o desejo de captar as linhas controversas e lacunosas da história oficial de Portugal, mesclando isso tudo com aspectos fictícios.

O autor arma-se de uma fina ironia, bem como de elementos paradísticos para realizar sua revisão. Utiliza-se de longos períodos em estilo arcaizante que se aproximam também da linguagem oral, sendo esta última um registro diametralmente oposto à linguagem fria e formal dos documentos históricos.

O que José Saramago pretende com tudo isso é relatar criticamente a loucura do poder, seja o humano, representado pela figura do rei, seja o divino, representado pela Igreja, mais especificamente pela Inquisição, que buscavam a permanência de sua ideologia através da superstição e da violência.

O artifício de que se utiliza o escritor se revela muito eficaz, uma vez que tanto narra do ponto de vista contemporâneo, como nos oferece a perspectiva de quem está vivendo aquele período no qual um capricho ou uma promessa de um rei sacrifica milhares de vida.

Prof. Celso Pagnan é doutor em Literatura de Língua Portuguesa pela UNESP. É autor de livros didáticos e Leciona Língua Portuguesa, Língua Latina, Linguagem Forense e Literatura na UNOPAR.


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